Satélites da NASA revelam tamanho do estrago das queimadas na Terra Indígena Maraiwatsédé.

Fogo na Suiá-Missu: Sequência de imagens de satélites mostra queimadas na Terra Indígena Maraiwatsede

O site na Nasa disponibilizou na manhã de ontem uma imagem do satélite LandSat 8 da região da antiga Fazenda Suiá-Missu, demarcada pela Funai como Terra Indígena Maraiwatsede. Como as outras que este site vem mostrando desde o dia 5 de julho, a imagem também deixa claro a devastação provada pelos incêndios dentro da Terra Indígena que está sob a responsabilidade da Funai e dos índios Xavante desde janeiro de 2013. Segue abaixo a sequencia de imagens começando pela do dia 02 de julho, quando foi detectado o primeiro foco de calor (pontos) no interior da área.

Clique nas imagens para vê-las ampliadas. O círculo vermelho na parte sul da Terra Indígena é o local da aldeia Xavante. Repare que é no entorno da aldeia que iniciam os primeiros focos de calor e os primeiros incêndios (pontos). As manchas escuras são as áreas calcinadas pelo fogo. Na parte de cima da imagem há a data em que ela foi capturada. As duas primeiras são do LandSat 8 da Nasa. A imagem abaixo foi capturada dezesseis dias depois da primeira imagem no topo da postagem.

A imagem abaixo é do satélite indiano ResourceSat 1. Foi capturada por volta das 15 horas do dia 28 de julho, dez dias depois da imagem anterior. Repare no centro da imagem. E possível ver o fogo caminhando em três direções e as colunas de fumaça. O incêndio estava acontecendo quando o satélite imageou a área. A Funai afirmou em nota na última sexta feira que as unidades do Prevfogo, do Ibama, estão no local desde o dia 27 de julho. Ou seja, se o comunicado da Funai é verdadeiro, o Ibama estava no local quando o incêndios mostrado nessa imagem acontecia.

A imagem abaixo é do dia 3 de agosto, cinco dias depois da imagem anterior. Repare na evolução das manchas escuras, que são as áreas calcinadas pelo fogo, e os pontos amarelos, que são os focos de incêndio detectados entre o dia da imagem anterior e o dia da imagem abaixo. Veja como coincidem os focos de calor com as áreas incendiadas, evidenciando que os focos representam incêndios. A Funai e o Ibama, responsáveis pela área, tem tentado inocentar os Xavantes afirmando que nem todo foco de calor detectado pelo sistema de monitoramento de queimadas do Inpe representa um incêndio.

A imagem abaixo é da última segunda feira, 19 de agosto, dezesseis dias após a imagem anterior. Infelizmente havia uma considerável cobertura de nuvens no momento da passagem do satélite. Mas ainda assim é possível perceber a gigantesca área calcinada, bem como a correspondência entre os focos de calor (pontos) e as queimadas.

Repare também que as manchas pretas fora da Terra Indígena, nas áreas ocupadas por produtores rurais, não têm a mesma frequência, nem as mesmas dimensões.

Entre a última segunda feira e hoje o sistema do monitoramento de queimadas do Inpe já capturou outros 151 focos de incêndio na região noroeste da Terra Indígena. Ao todo, desde o primeiro no dia 02 de julho, já foram 1.715 focos de queimadas. O número é um recorde histórico. Nunca na história de ocupação da área por produtores rurais houve tantos focos de calor nesse período. Essas novas queimadas devem aparecer nas imagens de satélite que passarão pelo local nos próximos dias. A equipe do Questão Indígena, agora com a colaboração de profissionais de geoprocessamento trabalho pro bono continuará o monitoramento da área.

Por que o Questão Indígena monitora as queimadas na Suiá-Missu?

Como disse Marina Silva em seu último artigo na Folha de São Paulo, “até as pedras” sabiam que essa Terra Indígena arderia em chamas na primeira estação seca depois da expulsão dos produtores rurais.

Faz parte da cultura Xavante atear fogo ao cerrado. Isso está fartamente registrado no livro dos irmãos Villas-Boas que escreveram no dia 7 de agosto de 1945, há exatos 68 anos antes das imagens de satélite mostradas nesse post, os seguinte trecho:

“O picadão subiu o Divisor, que é uma chapada plana e encascalhada. Do alto, avistamos para todos os lados, grandes queimadas. Como os índios judiam dessas terras! Não se encontra uma árvore, um arbusto, em toda a região, que não tenha a casca carbonizada pelo fogo periódico e implacável, que vai desnudando e empobrecendo cada vez mais o solo”. 

Os Villas-Boas se referiam à Serra do Roncador, divisor de águas das bacias dos Rios Xingu e Araguaia. A Serra do Roncador também era o divisor entre o bioma florestal, a Amazônia, e o Cerrado, onde viviam os Xavante. Esse divisor passa dentro da área da Suiá-Missu.

Além do hábito cultural dos Xavante de atear foco ao seu meio ambiente como forma de facilitar a caça e a proteção das aldeias, havia uma outra evidência de que a Terra Indígena arderia em chamas: a brachiaria.

O capim brachiaria foi plantado na região pelos produtores rurais que viviam no local antes de serem expulsos pela Funai e pelo Governo. Era o capim que alimentava o gado que sustentava as famílias.

Com a expulsão dos produtores rurais, e a consequente retirada do gado no início do período chuvoso de 2013, o capim passou todo o “inverno” produzindo matéria verde sem o controle do pastejo dos animais. Com a entrada do período seco, conhecido na região como “verão”, a matéria verde da brachiaria se transformou em toneladas e toneladas de matéria seca altamente inflamável.

Qualquer beócio, exceção feitas aos beócios da Funai e do Ibama, poderia prever que a mistura de Xavante com brachiaria seca implicaria em grandes incêndios. Este site vem mostrando esses incêndios desde o primeiro (Relembre: Começou o maior incêndio da história do Mato Grosso) e continuará a fazê-lo para que todos percebam o hábito que a Funai tem de abandonar os índios depois da demarcação das terras.

O interesse dos antropólogos que controlam a Funai migrou da proteção aos índios para a vingança contra os brancos descendentes dos canalhas que violentaram os índios ao longo da história do Brasil. O que a Funai faz hoje é um vingança intergeracional. A Funai tem pautado seu trabalho em demarcar terra indígena, expulsar os brancos, entrega-las aos índios, abandoná-los e partir para a demarcação da próxima terra indígena. Foi assim em Raposa-Serra do Sol, de onde os brancos foram expulsos em 2005 e onde os índios estão morrendo de desnutrição. Foi assim também na Apyterewa, na Governador em várias outras terras indígenas.

É por essa razão que a antropologia corrente e o lobby indígena luta contra a reforma do processo de demarcação. A antropologia da vingança não interesse uma demarcação justa a uma desintrusão pacífica. Porque isso não impingiria aos brancos nenhum sofrimento redentor daquele sofrimento causado aos índios no passado. A antropologia da vingança necessita da demarcação fraudulenta e da desintrusão violenta.

A reforma do atual processo de demarcação de Terras Indígenas passa pela luta entre a antropologia realmente preocupada com a proteção dos índios e a antropologia da vingança. Será preciso desmascarar a canalhice antropológica antes de reformar a política indigenista brasileira.

Os incêndios na Suiá-Missu são uma evidência da disfunção da Fundação Nacional do Índio e da antropologia corrente. Essas evidências estão sempre aqui no #QI enquanto tivermos condições de permanecermos no ar.

– See more at: http://www.questaoindigena.org/2013/08/fogo-na-suia-missu-sequencia-de-imagens.html#sthash.X3wpQXhD.dpuf

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Sobre edwardluz

Contatos & WhatsApp: (061) 99314389, (062) 96514602 Sou Edward M. Luz antropólogo brasileiro, goiano, residente em Anápolis e Brasília, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, mesma universidade onde cursou e concluiu graduação e mestrado em Antropologia Social (Lattes : http://lattes.cnpq.br/7968984077434644 ). Iniciei carreira profissional em trabalhos de identificações e delimitações de terras indígenas em 2003 e desde então exerci esta função de Antropólogo Consultor em três ocasiões, sempre contratado pelo convênio FUNAI/PPTAL. Durante os últimos sete anos trabalhei na identificação e demarcação de oito (8) terras indígenas, todas no estado do Amazonas. Sempre trabalhei orientado pelos artigos 231 e 232 do texto Constitucional, obediente à Portaria 14 e atento ao Decreto 1775/96 e acima de tudo, norteado pelos princípios acadêmicos de imparcialidade e cuidado aos quais acrescento sempre bom senso, equilíbrio e por um forte senso ética e responsabilidade com a vida dos meus interlocutores que estudo. A observância de tais princípios me colocou em rota de colisão com alguns antropólogos e sobretudo com a FUNAI, o que culminou com a rejeição de minha postura democrática e de diálogo com as partes envolvidas em demarcações de quilombos e Terras Indígenas. Independente de quem serão meus adversários continuarei batalhando contra e enfrentando esse perigoso processo político de etnicização do Brasil, esforçando-me por promover o diálogo, a postura democrática e as soluções racionais e dialogadas para o crescente conflito étnico no Brasil, mantido e estimulado por ONGs e órgãos que precisam desesperadamente do conflito para manterem e justificarem uma ideologia fracassada, que se espalha por ONGs, pela parte ideologicamente comprometida da universidade brasileira e sobretudo por servidores de importantes e respeitáveis instituições republicanas brasileiras que precisam ser resgatadas do pernicioso processo de aparelhamento político do estado a que foram submetidas. Continuo disposto a trabalhar em soluções republicanas e democráticas par as situações dos conflitos étnicos em todo território nacional. Edward Mantoanelli Luz. Antropólogo Consultor da Human Habitat Consultoria LTDA
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