A dupla identidade mestiça: Um “nabuh” para os ianomâmi e um ianomâmi para os “nabuh”.‏

Sempre soube do casamento entre o antropólogo norte-americano Kenneth Good e a Yanomâm Yarima, da Amazônia venezuelana. Casados na aldeia natal dela, Hasupuweteri, desde 1982, ela com 15 e ele com 39 anos, em 1986 foram residir nos EUA, onde se casaram conforme os protocolos cívicos estadunidenses de “papel passado” e tudo mais, nove dias depois, David Good nasceu! Tiveram dois filhos (David e Daniel) e uma filha (Vanessa).

Kenneth Good chegou à Amazônia em 1975 como aluno do antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon, autor de “O Povo Feroz” (1968) – registro de suas pesquisas com ianomâmis da Venezuela na década de 60, obra de referência sobre etnia durante décadas –, embora o ex-aluno Kenneth Good, que morou com os ianomâmis até 1986, alegasse que Chagnon manipulara dados em suas pesquisas.

Foi rebatido pelo mestre com sua vida pessoal: o casamento com Yarima, até hoje polêmico. Dizem, não consegui confirmar, que não há um código de ética que proíba antropólogos de relações de ordem afetiva e/ou sexual com sujeitos de suas pesquisas. Porém, Kenneth Good até hoje é acusado de pedofilia: ficou noivo de Yarima quando ela tinha 12/13 anos, mas diz que só se relacionaram sexualmente quando ela completou 15 anos.

A oferta de uma esposa a Kenneth Good foi feita, em 1978, pelo irmão dela, o cacique da tribo, onde Good era chamado de “shori” (cunhado), numa cultura que, após a menarca, a mulher já pode ter marido, conforme Kenneth Good em seu livro “Into the Heart: An Amazonian Love Story” (“Coração Adentro: Uma História de Amor Amazônica” (1991). Disse o cacique: “Shori, você vem sempre aqui nos visitar e viver conosco… estive pensando que deveria ter uma esposa. Não é bom para você viver sozinho”. A oferta não foi aceita de imediato, mas acabou sendo concretizada.

Os estudos de Chagnon foram questionados com mais vigor desde o lançamento da obra autor de “Darkness in El Dorado” do jornalista Patrick Tierney,  (“Trevas no Eldorado – como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia”). Na referida obra há acusações de que Chagnon tenha forjado, por encenações, mas com mortes reais, conflitos entre aldeias ianomâmis para provar que o povo ianomâmi é bélico, de natureza. Aventam que Chagnon deu aval aos experimentos do geneticista da Universidade de Michigan James Neel: uma vacina antissarampo, que desencadeou uma epidemia que matou centenas de ianomâmis.

Em 1993, Yarima, que parecia adaptada à vida fora da tribo, decidiu ficar com seu povo, quando lá esteve participando de um filme sobre a sua vida. A prole ficou sob os cuidados do pai, embora ela tenha insistido em ficar com a menina.

Em “Americano vai à Amazônia em busca de mãe ianomâmi”, David Good diz o quanto tentou esconder sua ascendência Yanomâmi: pedia ao pai que dissesse que ele era hispânico. Adulto, cheio de perguntas, partiu em busca de suas origens. Em 2011, teve um reencontro emocionante com a sua mãe, quando firmou o propósito de “criar vínculos de amizade entre a cultura ianomâmi e o mundo lá fora – mas do ponto de vista de alguém que pertence a essa cultura”.

“Quem sou eu? Sou ianomâmi ou sou ‘nabuh’ (branco)? Os ianomâmi me veem como um ‘nabuh’, e os ‘nabuh’ me veem como ianomâmi? Hoje me orgulho de ser um americano-ianomâmi, tenho orgulho da minha herança cultural. Eu amo minha mãe e anseio estar com ela novamente, aprendendo os costumes ianomâmi. Não sou antropólogo, não sou político, não sou missionário. Sou um irmão e sou um filho” (BBC 7.9.2013).

Ao refletir sobre sua identidade, David Good repete aqui e agora, ao vivo e diante das câmeras do mundo inteiro o raciocínio que Darcy Ribeiro de refez e recriou de forma brilhante revelando como a gênese da identitária mestiça elaborada pela mente coletiva milhares de brasileiros. Pensando-se ele mesmo como mestiço revela Darcy o raciocínio de milhares de brasileiros :

“Já o filho de uma índia, gerado por um estranho, branco ou preto, se perguntaria quem era, e se já não era índio, nem tampouco branco ou preto. Seria ele o protobrasileiro, construído como um negativo feito de sua ausência de etnicidade? Buscando uma identidade grupal reconhecível para deixar de ser ninguém, ele se viu forçado a gerar sua própria identificação: a sua própria identidade mestiça.

David Good revela-se alguém em paz com a sua dupla identidade mestiça, que no fundo,  não é nem americana, nem ianomami: é mestiça!!!

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Sobre edwardluz

Contatos & WhatsApp: (061) 99314389, (062) 96514602 Sou Edward M. Luz antropólogo brasileiro, goiano, residente em Anápolis e Brasília, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, mesma universidade onde cursou e concluiu graduação e mestrado em Antropologia Social (Lattes : http://lattes.cnpq.br/7968984077434644 ). Iniciei carreira profissional em trabalhos de identificações e delimitações de terras indígenas em 2003 e desde então exerci esta função de Antropólogo Consultor em três ocasiões, sempre contratado pelo convênio FUNAI/PPTAL. Durante os últimos sete anos trabalhei na identificação e demarcação de oito (8) terras indígenas, todas no estado do Amazonas. Sempre trabalhei orientado pelos artigos 231 e 232 do texto Constitucional, obediente à Portaria 14 e atento ao Decreto 1775/96 e acima de tudo, norteado pelos princípios acadêmicos de imparcialidade e cuidado aos quais acrescento sempre bom senso, equilíbrio e por um forte senso ética e responsabilidade com a vida dos meus interlocutores que estudo. A observância de tais princípios me colocou em rota de colisão com alguns antropólogos e sobretudo com a FUNAI, o que culminou com a rejeição de minha postura democrática e de diálogo com as partes envolvidas em demarcações de quilombos e Terras Indígenas. Independente de quem serão meus adversários continuarei batalhando contra e enfrentando esse perigoso processo político de etnicização do Brasil, esforçando-me por promover o diálogo, a postura democrática e as soluções racionais e dialogadas para o crescente conflito étnico no Brasil, mantido e estimulado por ONGs e órgãos que precisam desesperadamente do conflito para manterem e justificarem uma ideologia fracassada, que se espalha por ONGs, pela parte ideologicamente comprometida da universidade brasileira e sobretudo por servidores de importantes e respeitáveis instituições republicanas brasileiras que precisam ser resgatadas do pernicioso processo de aparelhamento político do estado a que foram submetidas. Continuo disposto a trabalhar em soluções republicanas e democráticas par as situações dos conflitos étnicos em todo território nacional. Edward Mantoanelli Luz. Antropólogo Consultor da Human Habitat Consultoria LTDA
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